Sobre a Gratidão

O intuito dessa reflexão não é meditar sobre o comportamento das pessoas diante das diferentes formas de Gratidão e nem um juízo sobre a demonstração individual de gratidão. Há diferentes formas de demonstração de gratidão. Minha reflexão se concentra numa forma católica de gratidão.

Comecemos pelo Salmo 147,7: "Respondei o Senhor com ação de graças". Ação de graças, portanto, gratidão. De fato, os Judeus praticam durante a Páscoa Judaica (Pessach), um cântico de gratidão, chamado Dayenu, que significa "Teria sido suficiente para nós". No capítulo 12 do livro de Êxodo, é instituído um memorial da libertação durante a Páscoa, um memorial litúrgico de agradecimento, quando Deus instrui que eles conservem a lembrança do dia da saída do Egito. Daquilo que Deus deixou instruído aos homens, nasceram as formas litúrgicas de recordação, entre elas o Dayenu

Dessa forma, podemos nos concentrar na seguinte meditação: devemos viver em ação de graças em toda circunstância, sem transformar o mal em bem, mas compreendendo que o mal pode nos trazer lições de amadurecimento e crescimento espiritual e por isso agradecemos a Deus mesmo em meio à tribulação, mas não agradecemos pelo mal. Portanto, devemos manter viva a gratidão pelo dia que ganhamos algo de alguém, sem esperar por mais, ou seja, não sermos ingratos diante do Bem recebido. Da mesma forma que quando damos algo, damos com alegria, sem nada esperar em troca, pois aquele que busca o reconhecimento, já obteve sua recompensa. 

Há quem pense que a gratidão para com o momento presente, seja uma forma de acomodação ou limitação como se agradecer implicasse em renunciar ao que ainda se espera. Outros pensam que se deve agradecer apenas quando um objetivo completo é alcançado. Mas não é assim. Agradecemos todos os dias por acordar e isso não significa que nossa vida acabará. Agradecemos por um dia que se concluiu, mas não por isso nossa vida se encerra ali. Agradecemos o macarrão de uma refeição e isso não significa que comeremos só macarrão pelo resto de nossa vida. A gratidão não mata a esperança. Pelo contrário, ela aviva a esperança, pois agradecemos enquanto a vida acontece. 

No Evangelho segundo São Mateus, no Capítulo 6, Jesus fala da nossa ansiedade diante das necessidades da vida. V.25 "Por isso vos digo: não fiqueis angustiados pela vossa vida, pensando sobre o que comereis ou bebereis, nem pelo vosso corpo, pensando sobre o que vestireis! Não vale a vida mais que o alimento, e o corpo mais que a veste?". Mais adiante, no v.33 Ele nos diz: "Buscai primeiro de tudo, o Reino de Deus e a justiça deste, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo!". 

Quando buscamos o Reino de Deus, nós desapegamos o coração dos bens da terra, inclusive os alimentos e as vestes, pois confiamos que Ele nos proverá o necessário. Portanto, não devemos viver de modo que o nosso objetivo primeiro seja obter dinheiro para comida, bebida e as roupas. Nosso primeiro objetivo é Deus. Obviamente trabalharemos e seremos remunerados. Mas a tudo o que chega até nós, damos graças.

Na meditação sobre o v. 33 Santo Agostinho nos explica no livro "O Sermão da Montanha" que o erro está em buscar o Reino por causa dos bens temporais. O correto é ordenar os bens temporais ao Reino. Quando o homem busca primeiro a Deus, não transforma o necessário em fim último. Recebe o que lhe é preciso sem se afastar da única meta.

Por isso, a gratidão cristã não é servidão às coisas da terra, nem recusa do trabalho, nem desprezo pelos frutos honestos do esforço humano. Ao contrário: tudo aquilo que nos serve legitimamente para viver, cumprir o dever, sustentar a casa, exercer a vocação e perseverar no bem, recebemos com humildade e ação de graças. Se, no caminho da fidelidade, Deus permite que nos venham sustento, aprendizado, meios de trabalho e frutos honestos, recebemos como bem subordinado ao Bem maior e não como o guia para nossa vida, muito menos como ídolo.

Há uma mensagem oculta nesse ensinamento: enquanto trilhamos o caminho do Reino de Deus, tudo o que nos chega honestamente e pode ser usado retamente é recebido com gratidão. Não nos inquietemos. Recebamos toda graça com humildade sem julgar se nos cabe, mas não a acolhemos com avareza nem soberba. Agradecemos, porque somos gratos diante do Bem (material ou espiritual) que recebemos.

Termino o texto com os seguintes convites à reflexão:

A gratidão precisa ser combustível: é um respeito prestado a todo esforço.

A gratidão é um sinal de humildade: é receber com humildade cada avanço. 

A gratidão precisa ser memória: é não esquecer o Bem que já nos foi dado.

A gratidão não mede o dom pela aparência: não o despreza se pequeno, nem o idolatra se grande.

A gratidão é disciplina do coração: impede que o desejo por mais nos torne cegos para o que já veio.

A gratidão jejua da murmuração.

A gratidão jejua da cobiça.

A gratidão jejua da soberba.

A gratidão é uma oração de ação de Graças, cuja forma mais elevada é a própria Eucaristia.

A gratidão é fruto da caridade.

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