Sobre perdoar
Entraremos em uma discussão mais auto centrada: "Amar ao próximo como a ti mesmo", "Como Ele nos amou" e "Perdoai e sereis perdoado". Essa fórmula é um elixir para nossa consciência: perdoar o outro é permitir que o outro erre conosco, é não endurecer o coração, é humildade. Mas, como amamos ao próximo como a si mesmo e como Ele nos amou, permitiremos que o outro erre, quando aceitamos que nós mesmos erramos. Portanto, estaremos cumprindo o mandamento se ao aceitarmos que nós erramos, suportamos que nosso próximo erre contra nós também. Corrijamos, é claro, isso Jesus nos pede que façamos em Lucas 17,3 quando diz: "Se teu irmão pecar, repreende-o; e, se se arrepender, perdoa-lhe". Portanto, não o condenamos pelo erro. O outro pecou, mas não é o pecado. Se arrepender, perdoa-o, de coração.
Ainda assim, perdoar lhe parece difícil? Pois temos ainda outra camada: perdoar não é esquecer, perdoar não é reconciliar. Perdoar é tirar da nossa consciência o fardo da dor, é mudar nosso coração. Perdoar não nos obriga a reaproximar, e isso fazemos pela prudência. Perdoar não afeta nosso discernimento. Não é ingenuidade, é caridade. É tirar de nosso coração a ideia de que temos o direito de odiar.
Perdoar, portanto é afastar o coração dos males que nele tentam habitar, um exorcismo sustentado pelo estado de graça. Pela prudência, carregamos essas experiências, não como um fado, mas, como memórias que orientam nossa prudência, para nos manter atentos e vigilantes. Perdoar é abrir o coração para que Deus nele opere uma cura.
Quantas vezes não rezamos o Pai Nosso, pedindo perdão das nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, mas, de verdade, continuamos endurecidos pelas mágoas que carregamos. Ora, estamos mentindo para Deus? Se permanecermos inertes, sim, mas esse impasse nos mostra a nossa distância àquilo que ainda não se concretizou em nós. Então, caminhemos para realizar o que Lhe prometemos diariamente, como o pão de cada dia que pedimos, com auxílio da Santa Maria mãe de Deus que roga, intercede, suplica por nós, pecadores.
Afinal, o que nos impede de perdoar senão nós mesmos? O que há aí dentro que dificulta o perdão, senão o apego à dor que nos transforma em vítimas eternas, o orgulho e a falsa ideia de que somos capazes de fazer justiça. Inevitavelmente, os outros escrevem em nós parte da nossa história e nos deixam feridas, mas cabe a nós escrevermos o fim dela. Todas aquelas feridas que os outros deixaram em nós, que só tornaram nosso coração endurecido.
O perdão depende de nossa vontade e da graça de Deus, mesmo que o outro sequer esteja aberto para receber o perdão. Nosso perdão diz respeito entre nós e Deus, portanto nosso perdão é proporcional ao quanto nos abrimos para a Graça. Se tanto permitirmos que os outros escrevam em nossa história, deixemos, portanto, Deus escrever mais profundamente nossa história também. Diga a Ele que quer perdoar e deixa Ele restaurar.
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