Sobre perdoar

"Vinde, Espírito Santo, e conduzi esta reflexão, amém."

Jesus Cristo nos pede que perdoemos nossos irmãos. Em Lucas 6,37 Jesus é bem claro na instrução: "Perdoai e serás perdoado".

Meditemos essa passagem, com outras passagens. Para algumas pessoas, perdoar é uma tarefa muito difícil. Mas, dentre as pessoas que facilmente perdoam, há aquelas que fazem por mera conveniência. É certo que Ele não espera que as pessoas perdoem por mera conveniência. Em Mateus 18,33-35 Ele nos diz: “ Não devias, tu tambem, ser clemente com teu companheiro, como eu fui clemente contigo? E, enfurecido, seu senhor o entregou aos torturadores até que pagasse tudo quanto devia. Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.” mas antes, em Mateus 5,8 Ele nos diz: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”

Como então perdoar genuinamente alguém? Para isso, precisamos nos conhecer genuinamente por dentro e nos perguntar: "Por que não queremos perdoar?". "O que torna um erro tão fatal para nós, que não cabe perdoar?". 
Talvez, porque tal erro te tirou autoridade, a sensação de controle, a legitimidade, status, valor? Vês o quanto os prazeres do mundo material tira a nossa paz interior e nos leva ao caminho da destruição? Lembremos que diante de Deus não somos nada, mas seres suplicantes de misericórdia. Devemos, portando nos "humiliare", ou seja tornar-se "humilis" e submeter-se a Deus. 

"Perdoai e sereis perdoado". Percebe como nessa passagem há algum um tanto mais efêmero, quando lembramos do mandamento "Amar ao teu próximo como a ti mesmo" e aquele que Jesus nos deixa em João 13,34 quando Ele nos diz: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros.”. Se eu sou capaz de perdoar o outro, eu sou capaz e devo me perdoar também. 

Entraremos em uma discussão mais auto centrada: "Amar ao próximo como a ti mesmo", "Como Ele nos amou" e "Perdoai e sereis perdoado". Essa fórmula é um elixir para nossa consciência: perdoar o outro é permitir que o outro erre conosco, é não endurecer o coração, é humildade. Mas, como amamos ao próximo como a si mesmo e como Ele nos amou, permitiremos que o outro erre, quando aceitamos que nós mesmos erramos. Portanto, estaremos cumprindo o mandamento se ao aceitarmos que nós erramos, suportamos que nosso próximo erre contra nós também. Corrijamos, é claro, isso Jesus nos pede que façamos em Lucas 17,3 quando diz: "Se teu irmão pecar, repreende-o; e, se se arrepender, perdoa-lhe". Portanto, não o condenamos pelo erro. O outro pecou, mas não é o pecado. Se arrepender, perdoa-o, de coração. 

Ainda assim, perdoar lhe parece difícil? Pois temos ainda outra camada: perdoar não é esquecer, perdoar não é reconciliar. Perdoar é tirar da nossa consciência o fardo da dor, é mudar nosso coração. Perdoar não nos obriga a reaproximar, e isso fazemos pela prudência. Perdoar não afeta nosso discernimento. Não é ingenuidade, é caridade. É tirar de nosso coração a ideia de que temos o direito de odiar. 

Perdoar, portanto é afastar o coração dos males que nele tentam habitar, um exorcismo sustentado pelo estado de graça. Pela prudência, carregamos essas experiências, não como um fado, mas, como memórias que orientam nossa prudência, para nos manter atentos e vigilantes. Perdoar é abrir o coração para que Deus nele opere uma cura. 

Quantas vezes não rezamos o Pai Nosso, pedindo perdão das nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, mas, de verdade, continuamos endurecidos pelas mágoas que carregamos. Ora, estamos mentindo para Deus? Se permanecermos inertes, sim, mas esse impasse nos mostra a nossa distância àquilo que ainda não se concretizou em nós. Então, caminhemos para realizar o que Lhe prometemos diariamente, como o pão de cada dia que pedimos, com auxílio da Santa Maria mãe de Deus que roga, intercede, suplica por nós, pecadores. 

Afinal, o que nos impede de perdoar senão nós mesmos? O que há aí dentro que dificulta o perdão, senão o apego à dor que nos transforma em vítimas eternas, o orgulho e a falsa ideia de que somos capazes de fazer justiça. Inevitavelmente, os outros escrevem em nós parte da nossa história e nos deixam feridas, mas cabe a nós escrevermos o fim dela. Todas aquelas feridas que os outros deixaram em nós, que só tornaram nosso coração endurecido. 

O perdão depende de nossa vontade e da graça de Deus, mesmo que o outro sequer esteja aberto para receber o perdão. Nosso perdão diz respeito entre nós e Deus, portanto nosso perdão é proporcional ao quanto nos abrimos para a Graça. Se tanto permitirmos que os outros escrevam em nossa história, deixemos, portanto, Deus escrever mais profundamente nossa história também. Diga a Ele que quer perdoar e deixa Ele restaurar.


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