Sobre irar-se
"Vinde, Espírito Santo, e inspirai essa reflexão, amém."
Há poucos dias assisti a um vídeo do Padre Chrystian Shankar, no qual ele disse "Irai-vos mas não pequeis".
Eu, um colérico com muitos traços de melancólico, fiquei desde então pensando nessa frase. De fato, irar-se é um sentimento inevitável para um colérico, que não precisa de muito para perder a paciência com todos aqueles que parecem se opor às rápidas ações.
A ira é um impulso que se manifesta com especial força no colérico, mas que todas as pessoas naturalmente experimentam. Portanto, devemos submeter este impulso à prudência, sem nos deixar governar por ela. Ainda que a ira que nos coloca em um estado de vigilância, de responder rápido e, portanto, ao invés de usá-lo de forma desordenada, devemos nos servir dela de maneira ordenada. Ele nos diz em Lucas 12,35-37:
"Estejam cingidos os vossos rins, e acesas as vossas lâmpadas. Fazei como os homens que esperam o seu senhor quando volta das bodas, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram. Bem-aventurados aqueles servos, a quem o Senhor achar vigiando, quando vier. Na verdade vos digo que se cingirá, os fará pôr à mesa, e, passando por entre eles, os servirá."
A vigilância nasce de uma disciplina interior, própria da perfeição cristã. Mas, a ira reage rápido ao menor movimento do outro, ao menor risco percebido. Usemos pois essa reatividade para o bem, purificando-o na graça.
Cristo tem uma palavra para nós, através do que Ele disse aos filhos do trovão, os irmãos Tiago e Seu amado discípulo João. Em Lucas 9, 54-56, quando Jesus não fora recebido na Samaria, pois Ele estava se dirigindo para Jerusalém:
"Vendo isto os seus discípulos Tiago e João, disseram: "Senhor, queres tu que digamos que desça fogo do céu, que os consuma?" Ele, porém, voltando-se para eles, repreendeu-os: "Vós não sabeis de que espírito sois. O Filho do homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para as salvar." E foram para outra povoação."
É uma ira que se manifestou como um zelo desordenado. Jesus busca refrear essa justiça particular. Em Mateus 5,44 no Sermão da Montanha, Ele nos diz:
"Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem."
Amar como Ele nos amou. Não aprofundarei mais sobre "O que é o Amor", pois discutimos essa questão no artigo sobre o perdão. Nosso Senhor define, perfeitamente o que é o amor e finaliza o Sermão da Montanha, conforme diz o Evangelho segundo São Mateus 5,48:
"Sede pois perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito."
E o que Cristo quer de nós quando diz para que sejamos perfeitos, se a perfeição é tão difícil de ser atingida? Será que ser perfeito é não cair, não errar, não pecar? Ele nos dá uma pista no Evangelho segundo São Mateus 19,17.20-21, quando falava para o jovem rico que Lhe perguntara sobre o que ele deveria fazer de bom para alcançar a vida eterna.
"Jesus respondeu-lhe: "Porque me interrogas acerca do que é bom? Um só é bom, Deus. Porém, se queres entrar na vida (eterna) guarda os mandamentos.". Disse-lhe o jovem: "Tenho observado tudo isso desde a minha infância. Que me falta ainda?" Jesus disse-lhe: "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.""
Aquele jovem, guardava os mandamentos, mas ainda se apegava ao mundo material. Mas, estes versículos já nos dão uma boa ideia do que perfeição quer dizer para Deus.
Um outro olhar sobre o Sermão da Montanha foi escrito no Evangelho de São Lucas 6,35-36:
"Vós, porém, amai os vossos inimigos; fazei bem e emprestai, sem daí esperardes nada; e será grande a vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo, que é bom para os ingratos e para os maus. Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso."
Quando comparamos com o que vimos em Mateus 5,48 "Sede perfeitos". À luz do Evangelho de São Lucas, compreendemos melhor o Evangelho de São Mateus, ser misericordioso faz parte de ser perfeito. De fato, a misericórdia também se manifesta quando "Amamos ao próximo como a nós mesmos, como Ele nos amou".
Portanto: "Mas não pequeis" é uma obrigação para um cristão, que deve refrear a ira com a graça. Não pecar contra o irmão é exercitado através da prudência. Ainda no Sermão da Montanha, em Lucas 6,27-29:
"Mas digo-vos a vós, que me ouvis: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, orai pelos que vos caluniam. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. Ao que te tirar o manto, não o impeças de levar também a túnica."
Cristo nos vonvida a escolhermos não perpetuar contendas com vinganças, ainda que pela Lei de Moisés se permitisse revidar em mesma medida. Há aqueles que nos ferirão a face, mas ao invés de revidar, devemos mostrar a outra face, como disposição da paciência e renúncia da vingança. No mais, nos preparemos para mais insultos, como nos alerta Santo Agostinho, mas não revidar o mal com mais mal, seja na questão pessoal e na material. Isso é uma quebra da lógica da vingança através da caridade. Portanto, a caridade também é sermos generosos e abrir mão do direito da vingança garantida pela Lei de Moisés.
Por fim, entendemos que devemos submeter a ira à purificação da graça, refreando-a pela prudência, vencendo-a pela caridade de renunciar a vingança, pelo discernimento do verdadeiro bem, do que fazer diante de Deus, de reconhecer no outro a presença de Jesus Cristo, ainda que esteja latente.
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